quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ENGODO WE TRUST


Terminou a faculdade de Letras em 1997, Português e Inglês, na UERJ, a muito custo, trabalhando de boy no Centro e estudando à noite. Passou no concurso do Estado. Dava aulas em Belford Roxo e Caxias. Tinha alunos que iam na escola só pra fazer movimento de drogas e ficavam zoando a aula. Desrespeitavam, mandavam ele tomar no cu, tacavam bolinha de papel com cuspe na cara dele. Ganhava uma mixaria que não dava nem pra pagar o aluguel direito. Com a Milena dizendo que tava grávida que a situação ficou pior ainda. Quase foi em cana duas vezes porque a pensão atrasou. Começou a dar aulas particulares de Inglês na Zona Sul. Mesmo assim vivia na pindaíba, morando numa quitinete no Cosme Velho. Depois que separou da Milena, era ligação quase toda semana pra encher o saco: remédio pro Carlinho, roupa, dinheiro pra passeio, pra material escolar. Um inferno.
Quando o Ranieri ligou dizendo que tava partindo pros States ele teve novas esperanças. Trampar no exterior, fosse no que fosse, iria ser muito mais vantajoso. Assim que o Ranieri ligou de Branford dizendo que tava ganhando mais de dois mil dólares por mês ele tomou a iniciativa. Tirou passaporte. Falsificou até contracheque e carteira profissional. Arriscou. Podia ir até preso por isso, mas tinha que arriscar. Na entrevista do consulado disse pro vice-consul que era professor do Pedro II, em inglês mesmo pra tirar onda, e que iria pro Estado de Connecticut à passeio. Conseguiu a tão almejada autorização. Vendeu a CB 400. Pediu uma grana emprestada pra mãe. States, lá vou eu! Gritava enquanto fazia as malas. Não avisou nada pra Milena. É claro que ela iria botar areia.Viajou.
O primeiro trampo que o Ranieri conseguiu pra ele foi de garçom num restaurante, em Branford mesmo. Trabalhador clandestino, é claro. O gerente todo dia o discriminando, chamava de macaco, de brasileiro sujo, de chicano. Ficou de saco cheio, pediu conta. Serviço não era difícil de achar, mas só sub-emprego. Sujeitou-se a condições de trabalho humilhantes e degradantes. Limpador de fossa, carregador de caixas, lavou bunda branca de velhos num asilo em Danbury. Na cidade de Hartford trampava de dia numa espécie de IML limpando defunto e à noite numa delegacia fazendo faxina nas celas dos presos. Trampo asqueroso. Rodou quase todo o estado pegando tudo quanto era tipo de serviço e fugindo da Imigração. Passou um ano nesse sufoco. A grana era boa mas os gastos eram altos também. Não conseguiu fazer um pé-de-meia. Começou a ficar desesperado. A situação tava pior que no Brasil. Pensou em desistir.
Tava num ônibus indo de Bristol para Branford, lendo o livro Lucia McCartney do Rubem Fonseca quando, não tendo nada pra fazer na viagem, pegou o conto Zoom e traduziu do português para o inglês. Era bom nisso.
Chegando em Branford teve uma idéia talvez o tirasse da lama: foi na cara-de-pau na redação do Westport News, apresentou-se para o chefe de redação como jornalista autodidata. Inventou uma mentira de que era brasileiro fazendo uma pesquisa sobre o jornalismo gonzo norte-americano e apresentou o conto traduzido como se fosse seu, perguntando se os interessaria publicá-lo. O redator leu e adorou-o. Adiantou seiscentos dólares na mão. Seiscentos dólares! Precisaria de lavar muita bunda de velho pra conseguir essa grana. Moleza! Ficou entusiasmado com a idéia. Ligou para o redator e disse que tinha outros contos e crônicas para enviar. O redator, além de concordar em publicar, deu o endereço de outros jornais para que ele oferecesse seu excelente trabalho.
Pegou todos os livros de contos e crônicas de escritores brasileiros que tinha levado pros States e começou a traduzi-los, manhã, tarde e noite. Ligou pra mãe e pediu que ela enviasse pelo correio mais alguns livros. Verteu para o inglês mais de duzentas crônicas e cento e trinta contos em menos de um mês.
Passava quase que todo o tempo em casa, só traduzindo e traduzindo. E vendia para os jornais. Sua renda chegou a quase quinze mil dólares semanais. Sua obra estava sendo tão bem recebida que conseguiu publicação em quase todos os jornais da região. Mandou, nesse esquema de tradução, várias crônicas e contos de autores brasileiros para uma porrada de periódicos. Mantinha uma certa regularidade de autor por jornal: Carlos Drummond de Andrade para o The Norwalk Citizen-News, Nelson Rodrigues para o The Darien News-Review, Rubem Alves para o Westport News, Rubem Fonseca para o The Connecticut College Voice, Carlos Heitor Cony para o Connecticut Post, Luis Fernando Verissimo para o Hartford Courant, Marcos Rey para o Meriden Record Journal, Clarice Lispector para o Amity Observer, Otto Lara Resende para o The News-Times, Sérgio Sant’Anna para o The Fairfield Citizen-News, Murilo Rubião para o Greenwich Time, Moacyr Scliar para o Guilford Courier, José J. Veiga para o The Wesleyan Argus, Millôr Fernandes para o The New Haven Register, Luiz Vilela para o The Yale Herald, Machado de Assis para o Yale Daily News, Lygia Fagundes Telles para o New London Day, Mário Prata para o Newtown Bee, e Fernando Sabino, que achava mais fácil de traduzir para os jornais Norwich Bulletin, Waterbury Republican-American e The Chronicle. Tudo como se fosse de sua própria autoria, é claro.
Começou a ministrar palestras em universidades. Ficavam impressionados com a sua “versatilidade de estilos e vozes completamente díspares”. Propuseram publicação em livro. Entrevistas freqüentes. Comia nos melhores restaurantes. Ranieri largara o serviço de garçon e tornou-se seu agente literário, ficava fazendo contatos. Ficou, então, muito conhecido no meio literário e jornalístico em quase todas as cidades do estado: Bridgeport, Woodbury, New Haven, Fairfield, Meriden, Middletown, Norwalk, Manchester, Southington, Waterbury, Bristol, Danbury, Newtown, Darien, Greenwich, Hartford, Guilford, Middletown, Willimantic, Stamford e principalmente em Norwich.
Até que numa fatídica entrevista, marcada às sete da manhã, o jornalista Michael Thompson do Journal Inquirer de Manchester, o desmascarara. Disse pra ele que havia pesquisado e descoberto toda a mentira. Contou que já tinha até o título da denúncia, trocadilhando pra chamada de capa, ironicamente, em português-inglês: Engodo We Trust.
Não tinha jeito, disse Michael num tom implacável, a notícia da farsa literária já estava pronta pra sair na publicação do dia seguinte: 12 de setembro de 2001.

O SENTIDO DA VIDA

Tudo mudou numa fração de segundos:

- Ademar! Olha a curva!

CRASH!!

BARULHÃO GOSTOSO


Maria Mijona fedia. Tinha esse apelido de Maria Mijona porque fedia a mijo. Mijava na roupa, mijava no papelão que dormia. Fedia mijo no cabelo, no braço, nas micoses do pescoço, na barriga branca inchada de lombriga, nos dentes cariados, no calcanhar sujo de graxa e terra, na roupa puída, nas pernas, na pererequinha.
- Maria Mijona, cê fede a mijo sua suja! – dizia a mãe dela.
A mãe da Maria Mijona não fedia, mas fodia. Fodia com os caminhoneiros enquanto a Maria Mijona dormia embaixo das rodas do Mercedes dois-eixos. A mãe da Maria Mijona dormia num cubículo sujo, perto do pátio dos caminhoneiros, atrás da borracharia Golden Shower . A Maria Mijona adorava ficar na borracharia conversando com o Seu Orlando, o borracheiro dono da borracharia. Ele que disse que a pererequinha dela fedia a mijo. E depois desse dia que ele descobriu que a pererequinha dela fedia a mijo, ele deu um filhotinho pequenininho de cachorro, bonitinho, pra Maria Mijona. Ela adorava brincar com o cachorrinho. Não gostava era de dormir no papelão fedendo a mijo, dentro do quartinho atrás da borracharia. Odiava quando a sua mãe ia fazer xixi de madrugada perto dos pneus dos caminhões estacionados ao lado da borracharia e ouvia o barulho do xixi saído de dentro da mãe dela. A mãe dela mijava alto. E a Maria Mijona tapava o ouvido pra não escutar o barulho. Ela acordou uma vez e viu uns caminhoneiros escondidos vendo a mãe dela mijar o jato e ouviu eles chegando pra cima dela.
- Faz o barulhão! Faz o barulhão gostoso aê, faz!
E viu que eles gostavam de ficar ouvindo o barulho. O barulho alto, jorro forte, grosso, líquido amarelo escuro furando a terra seca.
-Putamerda, feito mijo saído das beiça da buceta de uma égua arrombada! - disse um dos caminhoneiros.
E a Maria Mijona ficava com vergonha porque a mãe dela era mais mijona do que ela e deve ter sido a mãe dela que ensinou ela a ser mijona assim, pensou.
- Parece a bixiga de uma porca no cio!
E a Maria Mijona ouvindo aquilo riu e lembrou que a mãe dela não tinha mais bexiga, porque no mês passado a mãe dela tava mijando na roda do caminhão e a Maria Mijona tava com o ouvido tampado como sempre, mas mesmo assim escutou o grito da mãe e correu pra lá e viu a mãe caída no chão toda ensangüentada apontando pro canto e dizendo:
- Não olha pra lá Maria, não olha pra lá!
E a Maria Olhou e viu um troço vermelho estranho e perguntou mãe o que é aquilo e a mãe dela disse que era a bixiga e desmaiou e a Maria Mijona foi lá e viu que era uma bola de carne e fez xixi em cima da tal bixiga da mãe dela pra limpar viu que a bixiga da mãe dela tinha braço e perna e cabelo e pererequinha também e disse que coisa esquisita e pegou a bixiga e deu a bixiga pros cachorros do Seu Orlando comer. E brigaram pra comer tudinho. Não sobrou nada da maldita bixiga.
- A bixiga desgraçada que fazia a minha mãe fazer aquele aquele barulho todo quando tava fazendo xixi! - comemorou a Maria Mijona.
Mas não adiantou porque a mãe dela continuou mijando pros caminhoneiros.
E ela odiava quando o Seu Orlando chamava os caminhoneiros pra verem a mãe dela mijar. Juntavam em volta dela e gritavam Bucetuda! Arreganhada! Buçanha arrombada!, e jogavam dinheiro perto da mãe dela pra ela mijar mais e davam dinheiro também pro Seu Orlando.

- Faz o barulhão aê ô vadia ! Barulhão! Mija vaca! Barulhão! – gritavam em coro.
E a Maria Mijona não gostava de ver nem ouvir aquilo e ia brincar com o cachorrinho na borracharia do Seu Orlando. E teve um dia que o Seu Orlando disse olha só que maneiro Maria Mijona. E pegou umas lascas dum troço e disse que era carbureto e colocou no chão e tirou o negócio dele pra fora e fez xixi em cima e começou a pegar fogo, fogo mesmo, de verdade. É mágica, ele disse, é o líquido mágico que sai de dentro de mim e foi lá dentro da borracharia e pegou umas revista que tinham umas fotos de gente adulta fazendo xixi uma em cima da outra e o Seu Orlando disse pra ela que essas pessoas eram especiais porque o xixi delas também era mágico e perguntou se ela queria ficar com o xixi mágico também. Ela disse, sim, sim, eu quero ficar com o xixi mágico e quero que a minha mãe fica também, quero que o xixi mágico faz a minha mãe fazer barulhinho fininho igual a mim quando eu faço xixi, mas o Seu Orlando disse que só ia ensinar pra ela e pra mais ninguém, é pegar ou largar, e ela aceitou assim mesmo e ele pegou e botou o negócio dele pra fora de novo e disse fica quietinha e fez xixi no cabelo dela, nos braços dela, nas micoses do pescoço dela, na barriga branca inchada de lombriga dela, nos dentes cariados dela, no calcanhar sujo de graxa e terra dela, na roupa puída dela, nas pernas dela, na pererequinha dela.
- É quentinho! - ela disse do banho de xixi.
E depois que ele fez esse xixi todo ele disse olha só e pegou um pouco da lasca do tal carbureto e colocou num pedaço de pão e deu pro cachorrinho dela comer e ele comeu tudinho e , sem mais nem menos, o cachorrinho começou na correr gritando feito um louco e o Seu Orlando colocou uma caneca dágua na frente do cachorrinho e ele começou a lamber a água toda e de repente...ta ta ta ta....surgiu um rombo na barriga do cachorrinho. Tripa caindo, fedendo muito, muito mesmo, uma fumaça que saiu das tripa do cachorro. E aí o Seu Orlando falou olha só e mandou ela abaixar a calcinha e levantar a saia e fazer xixi em cima do cachorrinho. Fecha o olho, fecha o olho e faz xixi, faz xixi, isso, faz xixi,e ela fez e ele mandou abrir o olho, quando ela abriu o olho e olhou pra baixo, o cachorrinho tava vivinho da silva sem o buraco na barriga e tava até um pouquinho maior e com o pêlo um pouco diferente e o Seu Orlando disse que ele tornou o xixi dela mágico quando ele fez xixi nela e o xixi fez o cachorro renascer e até ficar maior um pouco, disse o Seu Orlando. Meu xixi te deu poder e como eu já sou poderoso à beça, cê viu, vou ficar mais poderoso ainda. Quer ver? Quero. Quero. Então olha só: agora faz xixi na minha cabeça preu ficar mais forte. Como assim? Abre as pernas que eu vou botar a cabeça embaixo da sua pererequinha e você faz muito xixi na minha cabeça. Muito, mas muito mesmo, tá? Faz força pra sair bastante xixi, tá? E ele deitou embaixo dela e ela fez a xixizada toda como ele pediu. Molhou o cabelo todinho. Até beber, ele bebeu o xixi mágico. E de repente ele levantou com a cara toda molhada de xixi e deu um pulo feliz dizendo que era o super-homem, sou o super-homem, sou o super-homem, e pegou um pneu de caminhão grandão e levantou no alto e a Maria Mijona riu pra caramba do Seu Orlando agora fortão com o xixi mágico dela.

APAE


- Eu cá sei, eu cá sei! Fazem-se bebés quando o homem põe a pilinha no pipi da mulher e depois sai uma coisa e os bebés ficam feitos. É assim, não é?
As vozes sobrepõem-se na aula de educação sexual. Há guinchos e gargalhadas e batidas na mesa. Os temas debatidos provocam excitação. Marta recém contratada pela instituição, percebe que Tião está eufórico. Ele fica de pé e todos vêem que seu pênis, sem a proteção da cueca que ele nunca usa, totalmente ereto, forma uma protuberância gigantesca na calça de moleton. Todos os outros apontam riem e debocham:
-Caraiudo! Caraiudo! Pinto duro!
Marta tenta apaziguar o alvoroço. Olha espantada a calça do rapaz e, antes de mandá-lo sentar, percebe-se estática, hipnotizada, imaginando pelo volume o tamanho do cacetão do deficiente mental. Fica imediatamente excitada.
- Silêncio gente! Senta Tião!
-Eu quero fazer sexo. E até já fiz montes de vezes com imensos homens!, grita Aninha, provocando as gargalhadas dos outros.
- Calma! Vamos lá! Quem é que sabe o que é uma relação sexual?, interrompe Marta, constrangida com a exaltação que a temática provoca sempre.
Fim da sessão. Marta exausta vai pra sala dos professores. Dona Mirtes ,uma portuguesona linha-dura, funcionária há mais de 27 anos olha-a com pena:
-Força Marta. Força. Eu já trabalhei com isso. Ainda há muito mal-estar, mesmo por parte dos técnicos que trabalham todos os dias com os deficientes. Às vezes vinham ter comigo muito perturbados: 'Ai fulano está ali a masturbar-se, que horror!' Mas que horror porquê?" eu dizia. Você tem que saber que é essencial ensiná-los a explorar o corpo em privado mas também sabe que nem todos têm a capacidade para aprender: E nesses casos, a questão é simples: a quem é que aquilo está a incomodar? É a quem vê, não é? Então talvez o deficiente possa continuar o que está a fazer, e quem estiver incomodado que abandone a sala.
Marta continuou ouvindo:- Já vi de tudo. Desde funcionárias que batiam nos deficientes que estavam em práticas masturbatórias, às que lhes chamavam porcos, 'tira daí a mão, que grande porcaria', até à situação contrária, técnicas que os estimulavam com revistas pornográficas, para satisfazerem as suas tendências voyeuristas. Um nojo!
Enquanto a velha falava, Marta não parava de pensar na cena do Tião. Sentiu-se molhada. A vagina latejava. Olhava pra Dona Mirtes e fazia que sim com a cabeça enquando ela falava pelos cotovelos:
- Se há quem os considere assexuados, há quem pense o oposto, que eles só pensam nisso, de uma forma quase animalesca. As duas opiniões estão erradas porque, no que diz respeito à sexualidade, eles são exactamente como todas as outras pessoas. Você sabia Marta, que na Holanda, há técnicos que ensinam os utentes a masturbar-se e até há técnicos que masturbam os deficientes profundos, incapazes de o fazer sozinhos? No nosso país não há profissionais que o façam. Haverá alguns, mas escondidos no segredo dos deuses. Sinceramente, eu acho que a razão para tanto secretismo prende-se sobretudo com aquilo que os outros possam pensar, não é? Um técnico que tenha o à-vontade para o fazer tem sempre medo dos julgamentos dos colegas ou de quem possa vir a saber. Mas os receios não se esgotam aí, menina. Alguns técnicos perguntavam-me: e depois se eles se habituam? Todas estas questões também têm muito que ver com a nossa educação judaico-cristã...
Marta não agüentava mais a falação. Pediu licença e, sem ao menos esperar a resposta, saiu deixando a velha falando sozinha.
Antes de pegar o corredor da saída teve um momento de loucura. Deu meia-volta, dirigiu-se ao quarto de Tião e vendo-o sozinho deitado na cama entrou e trancou a porta por dentro.
- Oi Dona Fessora!
Marta olha para aquele deficiente com idade mental de menos de 6 anos, sente pena. Nojo. Raiva. Tem vontade de espancar aquele branquelão gordo, sebento, débil. Como pode um merda desses deixá-la tão excitada? Vira em direção à porta e antes de sair olha pra trás. Tião está deitado olhando pra sua bunda. A protuberância de novo na surrada e fedorenta calça de moleton. Marta sente sua buceta latejando, fica tonta, parte pra cima do rapaz e dá-lhe um soco no meio da cara:
- Tira a calça seu de retardado de merda!
Tião tira a calça e a camisa e as meias. Fica totalmente nu. O membro enorme apontando pra cima, culhões roxoss. Cheiro de porra seca e bunda mal lavada. Marta nunca tinha visto um pau tão grande. Tira a sandália, bota o pé esquerdo todo sujo na boca do rapaz e grita:
- Lambe seu porco! Lambe meu pé seu mongolóide imundo!
Tião obedecendo à professora começa a lamber com força. Marta enfia o pé até a metade da sua garganta e com força empurra a cabeça até o chão. Apóia todo o peso da sua perna esquerda na boca de Tião. Ele ameaça golfar. Ela levanta a saia, chega a calcinha pro lado e , ainda com o pé dentro da boca do deficiente, agacha-se e numa só encaixada sente o enorme pênis entrando todo na sua vagina. Goza na terceira cavalgada. Tira o pé todo molhado de baba da boca do demente, levanta-se, recompõe-se e fica de pé. Olha pro Tião deitado de bruços vomitando. Sai do quarto. Ainda é tarde. No pátio a corriqueira gritaria dos internos. Vai pra casa. Vai direto pro chuveiro, toma um banho demorado. Ao sair beija o marido na sala e, antes de ir para a cama exausta, passa no quarto do filho com Síndrome de Down e dá-lhe um beijo carinhoso na testa.

A Clockwork Orange Sul-fluminense


23/10/2008 - da sucursal por Iolanda GreyckEm 1985, na novela Ti Ti Ti ( aquela dos costureiros Victor Valentin e Jacques Léclair) a personagem Eduarda ( Betty Gofman) vira punk / dark e entra para uma gangue, a Turma da Lazinha. Nessa gangue todo mundo era meio punk, meio dark e ninguém tomava banho.Uma inocente e pueril novela da Rede Globo.Enquanto isso, um grupo de rapazes, autodenominados também de “Turma da Lazinha” , saía às ruas da pacata cidade de Barra do Piraí, interior do Estado do Rio de Janeiro, com um único propósito: arrumar briga.Pancadarias, linchamentos, dilacerações, fichas na polícia, prisões, hospitalizações e até mortes marcaram as ações dessa gangue nada Global ou inocente.Quem é morador dessa cidadezinha e tem hoje, passados mais de 20 anos, idade acima de 50, 55 anos vai, provavelmente, dizer;“Nunca houve uma gangue aqui assim! Como é que aconteceu na minha cidade e eu não fiquei sabendo?”Ledo engano!A temível Turma da Lazinha existiu sim e aterrorizou quem na época tinha idade entre 15 e 25 anos: a garotada que saía da escola, os freqüentadores do Waldo Dicotheque, do bar calçadão, do extinto Cine Brasília.De posse dessas preciosas informações, a jornalista carioca Maria Lucia Camargo passou três meses nesta cidade com o propósito de investigar minunciosamente as ações desse nefasto grupo. Foram colhidos vários depoimentos dos envolvidos e entrevistas com os parentes dos, então, delinqüentes. Todas essas informações acabaram dando origem ao livro “Lazinha: quando a barra era pesada – histórias de violência e pancadaria de uma gangue que aterrorizou a pacata cidade de Barra do Piraí nos anos 80”. Ao ler o livro, bastante investigativo e impactante, ficamos imediatamente estarrecidos com o poder brutal dessa gangue do interior do Rio de Janeiro . Maria Lucia Camargo nos deixa tensos durante toda a leitura. Relatos de policiais civis e militares envolvidos, registros na polícia, registros nos hospitais, recortes de jornais da época, entrevistas com os ex-membros da gangue e com os pais e mães dos delinqüentes, costurados pela escrita fluida e intensa da autora, resultam num primoroso livro onde a investigação sobre a violência juvenil é o mote principal.Alguns depoimentos, como os de “Toninho”, ex-membro de uma gangue rival, a “Turma do Chalet”, nos faz ter idéia do tom do livro:“ O bicho pegava mermão! Nessa época bicho pegava feio! Era trinta contra trinta. Quando a galera do Chalet batia de frente com a da Lazinha, o tempo fechava. Só tô vivo hoje, com meus 42 anos, porque dei sorte quando a Lazinha me pegou de porrada. Me detonaram de cacete mas acharam que eu tava morto e me deixaram caído estatelado no chão. Tomei chute de botina de biqueira de aço na cara, chute no saco, paulada na costela, jogavam cachaça nas feridas que iam abrindo no meu rosto e doía mais ainda.Tive meu pé esquerdo quebrado por um paralelepípedo jogado de quina no meu tornozelo. Fiquei detonado. To aleijado até hoje. Os caras eram cruéis. Cruéis mesmo. Quem tivesse no caminho deles ia se dar mal, como eu me dei.”“Russo”, no capítulo “Vítimas do Ódio”, relata que:“ Porra! Os caras baixavam o pau a troco de nada! Apanhei, só porque eu tinha uma namorada no bairro que eles se reuniam. Numa noite, vindo da casa dela, dei de cara com a galera da Lazinha. Dei mole. Ao invés de dar meia volta, continuei andando na direção deles e , naquela de não querer botar a viola no saco, entrei numa de bater boca e, ironia do trocadilho, bateram muito, muito mesmo, na minha boca. Socaram uma barra de ferro bem no meio dos meus dentes. Quebrou todos os da frente na hora. E continuaram batendo: pisão na cabeça, pontapé na costela e o caralho. Me viraram do avesso.”No capítulo “Iniciação”, o ex-membro e um dos fundadores da Lazinha, Sérgio ( nome fictício), hoje um respeitado pai de família de 44 anos, dá em mínimos detalhes preciosas informações sobre o ritual de iniciação aos que quisessem, na época, entrar para a gangue:“ Não era mole não. Tinha que ter disposição pra passar no teste de iniciação e ser aceito na Lazinha. Assim que o camarada se apresentava dizendo que queria participar do grupo a gente o levava pro QG e começava o que a gente chamava de “A sabatina”. A gente metia no talo um Black Sabbath no toca-fitas, pra abafar os gritos, e tocava a porrada no calouro: surra de toalha molhada, telefone, corredor polonês, afogamento, cigarro aceso na língua e, com a língua queimada de cigarro, o camarada tinha que limpar os nossos pisantes, A gente escarrava, aquele escarro verde fedorento no nosso tênis e o calouro tinha que lamber tênis por tênis sujo de bosta de cachorro, catarro e lama. Se passasse por isso, tava no grupo. Motivo? A gente não tinha motivo nenhum. Era a porrada pela porrada. A gente também não tinha fins lucrativos nenhum, não éramos racistas nem anti-racistas, éramos democráticos: baixávamos a porrada em todo mundo, sem distinção de credo, cor, classe social ou partido político. Nossa idéia era botar moral mesmo. Sermos respeitados pela região. E éramos. Nós contabilizamos, na época, que cada um de nós comia mais ou menos umas dez mulheres diferentes por semana. As menininhas ficavam em cima. Era status ser comida por um de nós. E comíamos, é claro. Às vezes umas mais doidas entravam numa de serem comidas por todos. E a gente topava. Se tinha consentimento, a gente topava. Porque estupro nunca rolou não. E essas minas mais ninfomaníacas saíam de lá toda arregaçada e felizes da vida com mais de vinte pirus passados pela buceta e pelo cu. Coisa de doido, né? De doida, melhor dizendo.”No depoimento de outro ex-membro, o Tuca ( nome fictício), a relação da gangue com as drogas é descrita em detalhes:“ Não tinha esse lance de droga pesada não. Só um bagulhinho e uma brizolinha de vez em quando. Ahh.. brizola era o nome que se dava na época pra cocaína. Tinham uns que cheiravam lança perfume e loló, mas não era a minha não, me dava uma puta dor de cabeça. Birita a rapaziava biritava direto, era cinco, dez litros de pinga numa noite só. A gente bebia e saía pra night pra tocar horror. E treta com a polícia rolou algumas vezes, mas nada sério não. Se eu te falar que tinha até meganha na Lazinha, cê não ia acreditar. Na boa. Policial que, nas horas vagas, gostava de uma diversão. Tinha neguinho de tudo quanto era idade e classe social: crioulo do morro misturado com playboy que se misturava com moleque adolescente e com a galera mais cascuda de 25, trinta anos, com trabalhador. Mistureba geral. E doideira geral. E porrada geral.(...)”Quer saber mais ? bateu uma fome de conhecer o livro? Semana que vem já está nas livrarias o magnífico livro “Lazinha: quando a barra era pesada – histórias de violência e pancadaria de uma gangue que aterrorizou a pacata cidade de Barra do Piraí nos anos 80.”Tem que ter estômago. E estômago forte, permanentemente embrulhado pelas minunciosas histórias de extrema violência, nessa espécie de Laranja Mecânica Tupiniquim.Porrada. Uma porrada na boca ( do estômago).

NANOVELAS

www.twitter.com/alexandrecgomes

http://twitter.com/edsonaran?max_id=6219651959&page=2&twttr=true


#FollowFriday: @alexandrecgomes. Ele faz nanonovelas no Twitter. Isso é que bom uso para o meio, feito dizia a mocinha que descobriu o sexo. 3:24 AM Oct 2nd from web

###

Até os 23,só na bronha,nunca tinha visto uma buceta. Na primeira vez,força do hábito:parou na frente,olhou,e bateu uma punheta.

Enquanto os filhos viam na TV a Turma do Lambe-lambe,Tião ficava no quarto lambendo os desenhos das coxudas do Robert Crumb.

Darlene pediu o divórcio,coitada. “Foi a última gota!” Não agüentava mais.Hugo mijou de novo na tampa da privada.

O sorriso dela na foto?Sob a calcinha da Cléa tava a borboleta massageadora clitorial com vibro e controle remoto.

Quando reclamou,Taciane tava completamente certa.Ainda não tinham intimidade pra que o Léo cagasse, assim, de porta aberta.

Depois das brigas,entre a cruz e a espada,sofria o Beto.A Paula gritando: Não deixo mais que a megera da tua mãe veja o neto.

Edileuza passou anos,virgenzinha,procurando o homem ideal. Perdeu o cabaço,bêbada, para um desconhecido,no baile de carnaval.

Flávia conheceu o homem perfeito: carinhoso,meigo e compreensivo. Depois que casou com ele,descobriu: era homossexual passivo.

Ajoelhada no oratório,distraiu-se e lembrou da transa com o Osório.A calcinha molhou tanto que pingou uma gota no genuflexório.

Pediram exame de DNA pro Alessandro ao doar sangue pro pai, o Seu Abreu. Geruza, a mãe, pensou consigo mesma: Ih! Agora fudeu!

No Brunno’s Coiffers, a bicha pra cliente: Menina!Sem baixo-astral! Pra mim, homem é tudo igual, só diferem no tamanho do pau.

Recém-separada,Selminha, ao dormir, sentia-se muito sozinha. Comprou um ursão de pelúcia pra poder dormir abraçada de conchinha.

João demorava nas preliminares,todo orgulhoso:“Eu sei que agrada!” Dorotéia: “Mas que chatice!Eu gosto é de homem com pegada!”

“Quando ele souber,vai ficar pasmo!”O marido não deu a mínima.Ela havia desabafado: “Nesses vinte anos nunca tive um orgasmo!”

Tele-taxi-boy.“Uma dupla!” - “Sou louca! O que vai ser de mim depois!?” Quando os viu:“Pra esses daí pago até bandeira-dois!”

Diziam:“Ah,coitadinha da Juju,seis filhos,mãe solteira!” Ledo engano:com as pensões dos ex-maridos tinha era uma vida maneira.

Igreja fechada, Julia deu pro padre bonitão na noite de natal.Pecado por pecado,ainda teve que lavar a xereca na pia batismal.

Matou-a. Pois assim, do Júlio, passou a ser e única fêmea. Maria do Socorro, individualista que era, livrou-se da irmã gêmea.

Josefa não se zangava quando o marido olhava a bunda de outra mulher.Ele já tinha explicado:“Meu anjo.É uma doença.Sou voyer!”

“Virgem aos 28 anos”.Dizia para o noivo,honrando o voto conjugal.Só não contou que já tinha feito centenas de vezes sexo anal.

Mulher de malandro, Maria da Penha apanhava na cara igual uma égua pôtra. Mas dizia: “Só num admito é qui cê espanque ôtra!”

Perdeu a virgindade estuprada pelo padrasto,o Fuligem.Ele dormindo, jogou fervendo no ouvido.“Não gosta? Azeite extra-virgem!”

CABEÇA, TRONCO E MEMBRO


O combinado era esse. Ele não tinha que reclamar. Paraplégico desde que sofreu a lesão na medula espinhal devido ao acidente quando estava limpando o oitão, Francisco sabia que o certo a fazer era isso. E mesmo que não fosse o certo, era a única solução. Tinha combinado com a esposa que seria dessa maneira, sem traumas, sem questionamentos. Até porque, de escrota já bastava a vida financeira dos dois. Fudidos, ela empregada doméstica, salário mínimo, ele ex- segurança de banco, atual assaltante amador. Por isso o oitão. Mas, inexperiente que só ele, nem conseguiu levantar a tal grana pra sair do muquifo que moravam, dois cômodos, dentro de um cortiço asqueroso que dava pra ouvir até o peido do vizinho. Todo dia na mesma hora, começava a peidação. Brincava com a Catarina, sua esposa, que dava até pro pessoal do cortiço combinar horário pelos peidos do cara do 302:
“Faltando quinze pra peidação, cê me encontra lá no escadão, beleza?” ou “Peidação e quinze vai passar um filme maneiro na Globo!”
E morriam de rir. Fudidos de grana, mas felizes.
Até o acidente, a vida sexual deles era perfeita. Sexo todo dia. Todo dia mesmo. Mais por vontade dela do que por dele. Ele que não queria deixar de fazê-la feliz, esforçava-se, até mais do que agüentava, para satisfazê-la ao máximo. Ficava com o membro dolorido. Desconfiava que ela fosse uma espécie de ninfomaníaca. Por ele, a freqüência sexual poderia ser bem menor, umas duas vezes por semana estaria ideal, pensava. Mas todo dia, três gozadas por foda, duas horas de pau dentro acabava tornando, pra ele, a coisa um pouco tortuosa. Mas ele fazia. A amava. Fazia tudo que ela quisesse. E ela queria só sexo, e ele fazia. Sexo animal, sexo bizarro, sexo carinhoso, sexo sado-masô. Sexo de tudo quanto era maneira.
E aconteceu o fatídico acidente. Bláááu! Arma carregada sendo limpa, escapole da mão, cai no chão e dispara certeira na coluna cervical. Meses de internação. A notícia caiu como uma bomba na cabeça:“tetraplégico”. Quase entrou em parafuso. Tornara-se, de uma hora pra outra, num inválido, num inútil. Dependia da mulher pra tudo e ela fazia tudo pra ele: banho, barba, higiene, comida na boca, papel higiênico na bunda, pentear cabelo, cortar as unhas, tudo. E ele, por sua vez, não podia fazer nada por ela. Ficara revoltado principalmente pela a sua impossibilidade de satisfazê-la sexualmente. Ainda mais ela, faminta de sexo como sempre fora.
Tinha ouvido que para um paraplégico recuperar a vida sexual o principal era trabalhar a cabeça. Que o retorno da função sexual depende de muitos fatores. Depende da extensão da lesão medular, incluindo o nível (cervical, torácico, lombar, sacral) e se a lesão é completa ou incompleta. Também, fatores sociais e psicológicos, assim como a habilidade inter-pessoal do paciente, orientações sexuais, o estado em que encontra-se o casamento e a abordagem psicológica da nova imagem do seu corpo. Trabalhar psicologicamente a auto-imagem. Auto-imagem? Olhar-se no espelho era a última coisa que ele queria fazer.
A psicóloga, Drª Mirtes, que o visitava rotineiramente depois do acidente, viera com o papo da “vida sexual alternativa” para os deficientes físicos. Ficava dizendo:
- Francisco, você precisa saber que o deficiente físico precisa romper, antes de tudo, com o próprio preconceito e redescobrir que é capaz de seduzir, pois um dos aspectos mais importantes da sexualidade é a sedução. Como se seduz alguém? É como um felino com sua caça, focaliza-se o outro sabendo das fragilidades e potencialidades. Quando se seduz, o que se deseja é uma troca afetiva, mas você precisa saber quais são as suas forças, Francisco. Se alguém acha que não tem força nenhuma, nenhum poder de sedução porque é deficiente, se a cadeira de rodas é um peso enorme, o outro sempre vai vê-lo no papel de amigo. Aí fica difícil para a pessoa que não tem deficiência se envolver. E a sua mulher não é sua amiga, é sua fêmea. Você não concorda Francisco?
Ele odiava esse papo. Achava humilhante ouvir isso de uma mulher, ainda que coroa. Ele sabia que era um inútil e aquela comiseração, aquela compaixão, estava fazendo ele se sentir mais merda ainda. Não tava a fim de tentar nenhuma vida sexual alternativa. Estava preocupado com a esposa. Sabia que o que ela queria era ser preenchida por um cacete. Nada de cunnilígus, dedinho mole, carícias. Queria era uma manjuba no meio das pernas.
Daí o combinado: ela podia levar quem quisesse pra casa pra trepar. No começo ela relutou, ficou com pena dele, não queria traí-lo. E ele, visando a objetividade, deixara bem claro que a única saída era essa. Ele precisava de alguém que cuidasse do seu tronco inerte e ela de alguém que satisfizesse as necessidades sexuais. Sendo assim, argumentava Francisco, não haveria traição, pois existia consentimento. E se a necessidade dos dois era exclusivamente física, duas regras ficaram estabelecidas. A primeira seria de que ninguém além dela poria as mãos no corpo de Francisco, nem pra limpar nem pra nada. E a segunda seria que quando ela trouxesse homens pra casa, sempre em casa, nunca num motel e não poderia repetir nenhum, criar vínculo com ninguém, apenas sexo. Apenas o pênis que faltava. E combinaram assim.
E ela passou a levar tudo quanto era homem pra quitinete. Cada dia um cara diferente. Pretos, brancos, mulatos, japoneses, gordos, magros, engravatados, pés-rapados, tudo quanto era homem que ela via na rua, e que se encantavam por aquele rabão de mulata sargenteli, a Catarina trazia pra casa. Ao entrarem no cafofo estranhavam aquele cara na cadeira-de-rodas ao lado da cama, parado, com cara de estátua, mas logo logo a Catarina os tranqüilizava:
- Esquenta não, é meu marido. Aleijado. Não fede nem cheira.
- E nem fode! - Respondeu o branquelão gargalhando.
E ele ficava quieto. Só olhando. Desse dia em diante ela começou a pegar pesado nas ofensas:
- Tá vendo aleijado? Olha pra vagabunda da sua mulher sentando na piroca desse crioulo. Isso é que é homem, não um impotente inútil igual a você!
Passaram a ser rotineiras as humilhações. Teve uma vez que um camarada que bêbado tirou à força a calça do Francisco só pra confirmar a impotência. O cachaceiro comendo a Natália de quatro, e gritando pra ele com as calças arriadas:
- Porra aleijado, olha pra sua pica e olha pra minha. Cê nunca mais vai conseguir fazer isso, comer o cuzinho da vadiada sua mulher. Tu é um merda mesmo.
E o Francisco, resignado, sabia que se essa de ofendê-lo durante as fodas ia deixar a Natália mais feliz, ele aceitaria. Ela estando mais feliz, mais garantia de que ela estaria lá por mais tempo pra cuidar dele, se Deus quisesse, até o final da sua vida.
Quase todos os vizinhos do cortiço sabiam do que rolava nas madrugadas na casa do Francisco, principalmente pela barulheira da Natália gemendo. E iam, durante o dia lá pra prestar solidariedade ao corno consentido:
- Porra! Aceita isso não rapá! Tu é aleijado mais ainda é homem, bota essa vadia pra fora da sua casa! – disse uma vez o velhinho vizinho do 209.
O coroa do apartamento 311, militar reformado, quase todo dia ia falar com o Francisco:
- Cê quer que eu dê um corretivo nessa vadia? Eu sei que você está doido pra fazer isso, mas como é cadeirante, não pode. É só você autorizar que eu boto ela daqui pra fora na porrada. Nunca mais ela volta!
E ele explicava a situação, mas quase ninguém entendia. Não admitiam essa situação. Ela era uma vadia e pronto! Todo mundo achava isso. E ele tava cagando e andando pro que achavam. Só queria estar de dente escovado, bunda limpa, comidinha na boca, banho tomado, barba feita, lençol lavado e cueca cheirosa. Foda-se o resto. Foda-se o mundo.
Até que certo dia, três da tarde, batem na porta da quitinete. Ele sozinho em casa manda entrar. Entram o velhinho do 209, seu Adamastor, e uma moça que fora apresentada como sua filha.
- Olá senhor Francisco! Meu nome é Clara. Serei breve. Ontem o meu pai relatou-me da sua situação. Refiro-me à sua situação física. A matrimonial, não me interessa, ainda que meu pai tenha insistido em contar. Mas, voltando ao que eu ia dizer, sou médica especializada em estudos com transplantes de células-tronco e estou desenvolvendo um projeto numa clínica em Bogotá, na Colômbia, desde o mês passado. Esse projeto consiste em reabilitar pessoas que tiveram lesões na medula espinhal. Essa técnica de regeneração medular com células-tronco foi desenvolvida por um neurologista português e consiste na retirada de células da mucosa olfativa do paciente, localizada a um milímetro da massa encefálica. Essas células têm um alto poder de regeneração das conexões perdidas. A pesquisa começou em 2001. E eu comecei a pesquisar nessa época. Desde então, pelo menos 45 pessoas, vítimas de lesão medular, já foram submetidas à técnica, com bons resultados muitos deles recuperaram a sensibilidade perdida nos membros afetados. Alguns até já estão ensaiando um passos sozinhos. E por isso, senhro Francisco, venho aqui: O senhor aceitaria se submeter ao nosso tratamento? Quanto às despesas de passagem, hospedagem e tratamento, pode deixar por conta da clínica. E então, aceita? Só peço que, se aceitar, ninguém, mas ninguém mesmo, pode saber onde o senhor foi e o que foi fazer, nem a sua esposa. E outra coisa: o senhor viajará com um nome falso, ficará anônimo durante todo o tempo do tratamento.
Francisco, no mesmo instante separou seus trapos e deixou um bilhete para a Catarina antes de partir:
“ Meu amor, te amo. Sei que me ama também. Mas nosso relacionamento não está dando certo. Está faltando amor-próprio. Eu não estou me amando nem você está se amando. Estou partindo. Talvez nos encontremos por aí. Beijos. Francisco.”
E Francisco foi. Passou pela tal cirurgia de regeneração medular com células-tronco retiradas da sua própria mucosa olfativa. Sabia que era uma cobaia. Ficou dois meses na clínica de Bogotá. Fez fisioterapia. Tratamento intensivo. Uma equipe só pra ajudá-lo a se reestabelecer. E conseguiu. Depois de seis meses e vinte sete dias ele estava andando de novo. E sentia suas pernas perfeitas. Só tinha um problema: não conseguia ficar de pau duro de jeito nenhum. Tentou. Se esfregou em quase todas as enfermeiras colombianas e nada. Duas delas ficaram ao mesmo tempo lambendo a piroca morta e nada. Ficou desesperado. Deram revistas de sacanagem pra ele ler, passaram filme pornô, e nada. Desistiu. Contentou-se com o fato de pelo menos estar andando novamente. Assinou os documentos que precisavam. Agradeceu a Clara. Pegou o primeiro vôo para o Brasil e foi direto pro muquifo em que morava. Chegou às quatro da tarde, nenhum vizinho o viu chegando. Abriu o quartinho com a chave que ainda tinha. Não tinha ninguém em casa. Catarina estava trabalhando, pensou. Olhou pra velha cadeira de rodas e, só de ironia, sentou-se nela. Ficou lá esperando ansiosamente a esposa. Muito cansado, acabou dormindo. Acordou com a chegada da Catarina acompanhada por um cara mal encarado. Os dois olham para o Francisco. O cara pergunta:
- Quem é esse?
Catarina, sem conseguir esconder o ar de felicidade;
- Esse é o aleijado do meu marido. Um bosta. Um zero à esquerda. Não esquenta não. Vem cá e me come com força pro meu marido ver o que que é um macho na cama!
E o pau do Francisco ficou duro na hora.